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A (inevitável) nova etiqueta para viajantes | Gestão de Crise #3

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Por mais que tentemos ser otimistas neste momento, uma coisa é certa: viajar vai se tornar um pouco mais chato daqui para frente. O primeiro passo é entender que o “mundo de antes” não é mais uma opção.

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MALDITA INCERTEZA*

Além das milhares de mortes e dos cenários dramáticos registrados por todo o mundo por viajantes impedidos de voltar para casa, a pandemia de covid-19 trouxe para o panorama mundial doses cavalares de incerteza. Arrastado pelas empresas de aviação comercial, o setor de Turismo foi um dos mais atingidos e entidades reguladoras do setor registram a perda de 1 milhão de empregos por dia, o que causará uma queda considerável do PIB mundial e, principalmente, na economia dos países cuja dependência do Turismo seja grande.

Portugal é um desses países e da minha janela em Lisboa, consigo acompanhar diariamente a quase morte do tráfego aéreo. Se antes era comum observar pelo menos uma dezena de voos diários, hoje é raro que eu consiga avistar um solitário avião cruzando o céu lisboeta.

Se incertezas financeiras são mais fáceis de serem mensuradas, o mesmo não pode-se afirmar a respeito da crise sanitária e do tempo que ela durará. Ainda sem uma vacina e em um cenário internacional em que entidades multilaterais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), são sabotadas por razões populistas, pensar num pós-crise positivo parece demasiado otimismo. A verdade é que não sabemos o quanto esse período histórico irá durar.

Para alguns historiadores, como Lilia Schwarcz, a crise da covid-19 marca o início de fato do século XXI, dada a importância do acontecimento em um panorama global. O fato é que o mundo entrou em um período de transição e, como se isso já não fosse complicado o suficiente, a falta de liderança em muitos países ou mesmo uma liderança perniciosa em outros, dificulta ainda mais a confiança da população em seguir diretrizes.

Está bem, mas o que isso tudo tem a ver com viagens? Caro viajante, sinto dizer, mas tudo! Para começar, o ato de viajar – mesmo que importante para manter a economia ativa – de uma maneira geral é visto como algo supérfluo, que pode ser adiado indefinidamente na maioria dos casos. Por isso, até que consigamos viajar com segurança novamente, é importante nos mantermos alerta em como e quão rapidamente estão agindo os governos, as empresas e a população do nosso país com relação à pandemia.

 


GOVERNOS


FALTA DE LIQUIDEZ E FOCO NO MERCADO INTERNO

A União Europeia ainda não conseguiu entrar em um consenso sobre as medidas em comum a serem adotadas, mas o mais provável é que os países membros adotem medidas internas para estimular o turismo doméstico, e para que as empresas do setor consigam diminuir um pouco os prejuízos durante o verão de 2020 (entre junho e setembro). O mesmo cenário pode ser observado nos Estados Unidos, em que os governos estaduais ainda tentam criar estratégias de mitigação dos prejuízos para o setor.

Enquanto em Portugal, o governo perde-se em burocracias para liberar às empresas em lay-off o auxílio financeiro prometido ainda em março, e pensa em como será o plano de ação para recuperar a TAP Linhas Aéreas da crise, no Brasil, linhas de crédito similares também já foram anunciadas para as empresas do setor. A questão é: será que esse dinheiro já chegou? Será que chega a tempo? Na maior parte dos países, parece que a recuperação financeira do Turismo será incentivada, por razões óbvias e práticas, pelo fomento ao turismo interno.

 

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ABERTURA E CONTROLE DE FRONTEIRAS

Na fase atual, a maioria dos Estados desaconselha viagens não essenciais ou mesmo impossibilitam que elas sejam feitas. Europa, Estados Unidos e Brasil encontram-se com as fronteiras encerradas e os planos de abertura tendem a ter um tom conservador (em países sérios).

UM POUCO DE FUTUROLOGIA

O pós-crise (que ainda não está nem perto) deve trazer mudanças significativas para quem for viajar nos próximos tempos. O mais provável é que, além dos controles fronteiriços já conhecidos, outros sejam implementados com o intuito de frear uma segunda vaga da epidemia. Quando a vacina contra a covid-19 for uma realidade mundial (estima-se de 18 a 24 meses), é quase certo que tenhamos um “Certificado de Vacinação Internacional de Covid-19”, no mesmo modelo que é exigido por alguns países para doenças como a febre amarela.

TESTAR, TESTAR, TESTAR (RAPIDAMENTE, RAPIDAMENTE, RAPIDAMENTE)

É bem provável também que o controle de fronteiras passe a fazer testes rápidos de temperatura em estrangeiros que entrem em determinados países e/ou exijam a utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) por parte dos viajantes. Para serem bem sucedidas, estas ações devem ser coordenadas e contar com a cooperação de todos os países, eis porque a retórica nacionalista pode atrasar a retomada da economia como um todo, mas com ainda mais ênfase no setor turístico.

CERTIFICAÇÕES NÍVEL 1

Para passar mais confiança às pessoas que viajarem nos próximos meses, é possível que vejamos em outros países versões da mesma medida anunciada recentemente pelo Turismo de Portugal, que certificará com um selo de qualidade empresas do setor que proponham-se a adotar medidas mais eficazes com relação à higiene de hotéis, albergues, alojamentos locais e, posteriormente, às outras empresas relacionadas ao Turismo.

 


EMPRESAS


FLUXO DE CAIXA E CRUZEIROS COMPROMETIDOS

A única saída para diversas empresas do setor turístico mundial será abrir falência, infelizmente. Outras medidas dependerão de subsídios estatais para a manutenção de empregos e do fluxo de caixa para pequenos empresários. Pela própria natureza do negócio, a indústria de cruzeiros marítimos terá certamente que se reinventar após 2020.

FLEXIBILIZAÇÃO NA MODA

Já em fevereiro de 2020, empresas ligadas ao setor passaram a verificar uma queda brusca em suas receitas e tiveram que se mostrar mais flexíveis com relação a cancelamentos ou adiamentos por parte de viajantes apavorados com as notícias sobre a pandemia em destinos turísticos clássicos como Itália, Espanha e França.

CERTIFICAÇÕES NÍVEL 2

Em resposta à crise, o Airbnb anunciou recentemente um novo protocolo de limpeza para orientar os anfitriões. O planejado é que ele comece a ser utilizado já em maio de 2020 nos Estados Unidos e, nos próximos meses, em outros países. Ainda não se sabe se a medida será adotada por outras empresas, como a Booking. O anfitrião que optar por seguir o novo protocolo de limpeza deverá garantir um prazo de 24 horas entre a partida de um viajante e a chegada de outro. Já quem não realizar todas as etapas de higienização será obrigado a esperar 72 horas antes de receber um novo hóspede.

INOVAÇÕES

Já tornou-se um clichê afirmar que toda crise também traz muitas oportunidades, mas o fato é que muitas empresas já estão trabalhando para criar soluções de enfrentamento ao problemático cenário turístico atual. Desde novos uniformes e EPIs para a tripulação – como fizeram empresas como a Air Asia, a Emirates, a KLM e a Latam – até adaptações de desinfecção hospitalar às aeronaves para garantir aviões “livres de vírus”.

 


CLIENTES


NOVO COMPLIANCE PARA OS TRANSPORTES

Por mais que tentemos ser otimistas neste momento, uma coisa é certa: viajar vai se tornar um pouco mais chato daqui para frente. O primeiro passo é entender que o “mundo de antes” não é mais uma opção. É melhor começarmos a nos acostumar pois cada vez mais passaremos a ser recebidos por profissionais mascarados, de luvas e com outros equipamentos de proteção que não estávamos habituados a ver longe de hospitais. A tendência é que estes agora sejam largamente utilizados em aeroportos, aviões, barcos, ônibus/autocarros, trens/comboios etc.

AGLOMERAÇÕES E NATUREZA

Além disso, aglomerações devem tornar-se cada vez mais raras. Caso seja inevitável, é possível que uma parcela considerável das pessoas seja aconselhada (ou obrigada) a usar máscara em lugares muito turísticos. O que deve beneficiar em parte o turismo de natureza, geralmente a céu aberto.

 

© Skitterphoto (Pexels)
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MENOS TRANSPORTE COLETIVO, MAIS CARROS

Caso a geografia permita e as empresas de transporte coletivo, sejam elas empresas aéreas, rodoviárias, ferroviárias ou marítimas, não forem capazes de passar a confiança necessária com o serviço prestado, é possível que haja um aumento das viagens internacionais de carro, com um impacto considerável em rodovias e nos índices de poluição (um verdadeiro sonho se todos eles fossem  elétricos).

NEGÓCIOS E ESTUDOS REPENSADOS

Com a adesão obrigatória de reuniões online por parte de algumas companhias, através de videoconferências, o uso da internet deve substituir viagens de negócios não essenciais nessa Nova Era. O mesmo deve servir, infelizmente, para os intercâmbios, que provavelmente terão que adaptar parcial ou mesmo totalmente as suas aulas presenciais para o universo online.

UMA NOVA ETIQUETA DE VIAGEM

Novos tempos, novas regras! E nisso, a sua nacionalidade pode ser crucial. O mundo está adotando compulsoriamente uma nova etiqueta e os viajantes, mais do que nunca, devem se adaptar rapidamente. Foi-se o tempo dos beijinhos no rosto ou mesmo do amistoso aperto de mão nas apresentações pessoais. A ordem do dia é pouco ou nenhum contato físico. O que torna mais fácil a vida de alguns povos orientais e terrivelmente difícil para culturas latino-americanas e ibéricas. Infelizmente (felizmente para os naturalmente antissociais), o momento exige um pouco menos de intimidade entre as pessoas de uma forma geral.

 

© Element5 Digital (Pexels)
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AUMENTO DA XENOFOBIA E DA TURISMOFOBIA

Até porque certos hábitos serão a cada dia que passa mais mal vistos por povos que lidam de uma forma melhor com o distanciamento social. Mesmo que venhamos a ter uma vacina disponível em algum momento, é possível sim que haja um aumento da turismofobia ou mesmo da xenofobia como efeito da pandemia de covid-19.

O PESO DO PASSAPORTE

E ironicamente, o país do qual partirmos colaborará imensamente em como seremos vistos por outras nacionalidades daqui para frente. Governos analisarão não apenas o próprio desempenho, mas também o desempenho de outros países na hora de abrir as suas fronteiras e, certamente, pesará na sua decisão como os outros governos foram capazes de lidar com a crise e de protegerem a própria população durante a crise sanitária.

Conforme já mencionado, é bem provável que uma boa parte dos governos foque no turismo interno para salvar suas respectivas economias em um primeiro momento. Nesse sentido, sair dos Estados Unidos, da Espanha, da Itália e, principalmente, do Brasil, para determinados lugares do mundo, pode tornar-se uma missão quase impossível no curto prazo.

 

*Devido ao cenário de instabilidade, alguns dados podem já ter mudado até o lançamento deste artigo.

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