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Novos tempos ou novas crenças? | Gestão de Crise #2

Nas atuais circunstâncias nada impede que nos voltemos para o conforto da religião e da espiritualidade, se consideramos estes fatores importantes em nossas vidas. Porém, seguir à risca o que aconselham algumas lideranças religiosas pode colocar não apenas a sua vida em perigo, mas a de uma população inteira.

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O primeiro trimestre de 2020 foi marcado pelo início de mudanças consideráveis no panorama global. Mudanças essas que não faziam parte do planejamento da grande maioria da população. Em 90 dias o mundo estava de cabeça para baixo, colocando em causa todo o resquício de estabilidade (ainda que ilusório) que norteava a vida dos cidadãos comuns. E a crise sanitária não chegaria sozinha.

Diretamente vinculada à primeira, segue-se uma crise financeira inevitável. E com ela, em diversas partes do mundo, os cidadãos começam também a  reviver de alguma forma uma crise de confiança nas instituições. “Será que o governo do meu país está tomando todas as medidas necessárias para preservar vidas?”; “A empresa para qual trabalho preocupa-se mais com o meu bem-estar ou com os prejuízos financeiros?”; “A imprensa é digna de confiança?”; “Os líderes da minha religião estão agindo de forma responsável?”; “Devo considerar dados científicos?”.

Em um mundo em que tudo muda na velocidade da luz, nos vemos obrigados a reformular com igual velocidade parte das nossas crenças individuais. Segundo uma pesquisa da Edelman Trust Barometer, sobre a “Confiança e o Coronavírus”, 85% dos entrevistados disseram que precisam ouvir mais os cientistas e menos os políticos. Parece-nos razoável, não é? Ainda mais considerando o cenário recente em que uma parte das pessoas, baseada em teorias sem nenhum respaldo científico, começou a questionar desde a eficácia das vacinas à esfericidade da Terra.

Mas e quando a figura do político mescla-se com a de um líder religioso? Ou em outros casos, quando uma boa parte da população tem esses últimos como a única liderança possível em um momento tão desesperador?

 

© Ric Rodrigues (Pexels)
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O VIÉS RELIGIOSO

 

A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável.” – H. L. Mencken

 

Nas atuais circunstâncias nada impede que nos voltemos para o conforto da religião e da espiritualidade, se consideramos estes fatores importantes em nossas vidas. Porém, seguir à risca o que aconselham algumas lideranças religiosas pode colocar não apenas a sua vida em perigo, mas a de uma população inteira.

No início de março, a Coreia do Sul era considerada o segundo país com o maior número de casos de coronavírus fora da China (até então o epicentro da doença). Uma seita chamada Shincheonji cujo líder, Lee Man-hee, é visto por seus seguidores como “o anjo enviado por Jesus” teve um papel de destaque na propagação da doença.

 

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Enquanto lutava para conter a epidemia, o governo sul-coreano responsabilizou o líder religioso por contribuir para a disseminação do surto ao se recusar a fornecer uma lista completa de seus membros. 73% dos casos estariam conectados à instituição, segundo a emissora britânica BBC.

Na Índia, onde o primeiro-ministro Narendra Modi atualmente governa um Estado nacionalista hindu cada vez mais agressivo, autoridades culparam um grupo islâmico por espalhar o vírus e os muçulmanos foram alvo de uma onda de violência.

Segundo a matéria do The New York Times, nesse caso, o que está piorando as coisas é que há um elemento de verdade por trás das reivindicações do governo. Um único movimento religioso muçulmano foi identificado como responsável por grande parte dos mais de 8.000 casos de coronavírus na Índia. As autoridades indianas estimaram na semana passada que mais de um terço dos casos do país estavam relacionados ao grupo Tablighi Jamaat que realizou uma grande reunião de pregadores na Índia em março. Reuniões semelhantes na Malásia e no Paquistão também levaram a surtos.

 

 

No Brasil, em meados de março, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, escreveu no Twitter, que governantes teriam que recorrer à Justiça para fechar as suas igrejas em meio à pandemia. Uma mudança de postura ocorreu após pressão do Ministério Público estadual que chegou a solicitar à Justiça do Rio de Janeiro para que Malafaia fosse proibido de promover cultos ou mesmo de abrir suas igrejas. Mesmo o pedido tendo sido negado, o pastor resolveu suspender as reuniões.

O bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, chegou a negar a gravidade da crise sanitária do coronavírus. Em um vídeo compartilhado nas redes sociais ele minimizou os alertas sobre a pandemia, atribuindo a preocupação mundial com a covid-19 a uma “tática de Satanás” e a “interesses econômicos”.

Devido a estes exemplos, no mínimo questionáveis, por mais crentes que sejam algumas pessoas, se forem minimamente informadas e providas de pensamento crítico, dificilmente irão olhar para o seu líder religioso da mesma maneira.

 


AINDA HÁ RAZÕES PARA ACREDITAR?

 

Podemos esperar o início de uma crise nos sistemas de crença da humanidade, no mesmo modelo das crises sanitária e financeira? É um cenário possível. E isso não chegaria a ser um ponto negativo (na minha opinião, claro).

Vejamos alguns exemplos de questionamentos positivos a crenças antes “inabaláveis” para algumas pessoas:

A cada dia que passamos em confinamento, fica mais difícil negar o impacto negativo que causamos no meio-ambiente:

  • Mesmo sem a certeza de que será um fenômeno duradouro, é inegável que a poluição vem diminuindo por todo o mundo durante a pandemia.
  • Recentemente algumas cidades do norte da Índia voltaram a poder observar a cadeia de montanhas do Himalaia após uma queda drástica nos índices de poluição do ar.
  • Espécies de animais que não eram vistas há muito, voltaram a ser observadas com a diminuição da atividade humana em determinadas áreas.

Vem crescendo a confiança das pessoas na Ciência e nos cientistas:

Modelos políticos, econômicos e sociais começam a ser questionados:

  • Temos mesmo que sair de casa todos os dias? Especialistas vêm discutindo as novas relações de trabalho e estudo que podem se consolidar a partir da pandemia, com a crescente utilização de ferramentas online.
  • Modelos de governo populistas, em geral, mais céticos às evidências científicas, podem sair enfraquecidos da pandemia.
  • A desigualdade social tão comum em algumas partes do planeta ficaram ainda mais evidentes depois do coronavírus.

E existem muitas outras boas notícias em meio à crise. Algumas são fontes de positividade dignas de destaque no “Razões para Acreditar” (site que compila as boas notícias que surgem pelo mundo e que pode ser uma fonte de inspiração naqueles dias em que o “noticiário do Apocalipse” nos coloca para baixo).

 

© Xi Xi (Pexels)
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Ainda sobre religião/espiritualidade, a crise atual acaba por provar à grande maioria dos mortais o que apenas “seres iluminados” conseguiam enxergar. Que não é necessário estarmos fisicamente em um templo para nos conectarmos a Deus, tenha ele o nome que tiver na sua religião. Mesmo que algumas pessoas ainda precisem de um “guia” nessa jornada – seja ele um guru, um pastor, um rabino, um xamã, um padre, um imã, já ficou evidente que o contato pode (e no momento, deve) ser feito remotamente.

Sobre a crise sanitária, por mais terrível que possa parecer agora, e muito bem explicitada por Yuval Noah Harari recentemente (“Não estamos na Idade Média”), vai passar em algum momento. Sim, é grave, é preocupante, mas não é uma guerra perdida. Já passamos por isso antes.

O cientista e professor da Universidade de Navarra, Ignacio López-Goñi, que ousou dar “10 boas notícias sobre o coronavírus” há pouco mais de um mês, reconhece que muito do que se supunha sobre o vírus na época já caiu por terra, mas continua otimista. E para encerrar este artigo com uma luz no fim do túnel, faço minhas as suas palavras:

 

A ciência nunca esteve tão bem preparada quanto agora para combater um problema como este”

 

Mas continue em casa!

 

Recomendação:

10 boas notícias sobre o coronavírus em meio a “pandemia de medo”, artigo da BBC News Brasil (abaixo, a versão em vídeo)

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