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Discursos de Ódio | A Sombra do Cara Comum

Como os discursos de ódio na internet podem demonstrar a fragilidade e o lado sombrio de um arquétipo coletivista por essência.

 


O ÓDIO NOSSO DE CADA DIA


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Imagem: Pexels

 

Muitos brasileiros estão tentando entender o que ocorreu, e o que ainda está ocorrendo, nestes últimos meses de 2018, ano em que tivemos no Brasil a mais polarizada das eleições presidenciais dos últimos tempos. O ano ainda não acabou, o novo presidente eleito sequer tomou posse, e ainda estamos aprendendo a lidar com um furacão que passou na forma de discursos de ódio devastando a internet e, principalmente, as redes sociais nos últimos meses.

Conheço grupos de amigos e familiares que ainda não se recuperaram totalmente dos embates de 2018 (não deveriam ser “debates”?) e têm esperança que as festas de fim de ano tragam algum alento e uma dose mínima de união para uma população já desgastada pela violência e pelas crises econômica, política e ética dos últimos anos. Mas o que diabos está acontecendo?

O discurso de ódio (do Inglês, hate speech) pode ser definido como qualquer ato de comunicação que inferiorize uma pessoa por características como etnia, raça, religião, orientação sexual, nacionalidade, ou seja, é um discurso usado como forma de discriminação. Juridicamente, é qualquer tipo de discurso, conduta, gesto, escrita ou representação, que possa incitar violência, ofensas ou ações contra alguém ou um grupo de pessoas.

 

Se lembrarmos do impeachment, por exemplo, vemos a formação de um discurso misógino, um posicionamento mais radical. E isso foi fomentado pelos discursos de ódio, um tipo de paixão, e paixão não é amor, é idolatria. Quando idolatramos algo ou alguém ficamos cegos e negamos qualquer evidência negativa, seja de esquerda ou direita”.

— Vitor de Angelo, doutor em Ciências Sociais

 


BROMANCE


Grafite com o beijo de Jair Bolsonaro e Donald Trump, de Yuri Souza
Grafite com o beijo de Jair Bolsonaro e Donald Trump, de Yuri Souza

 

Para entender o que está acontecendo no Brasil de 2018 e, provavelmente (e infelizmente) deve continuar em 2019, temos que voltar um pouco no tempo e observar os resultados de uma eleição igualmente polarizada e polêmica. Em 2016, nos dez dias seguintes à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, foram registrados 900 casos de ataques racistas ou xenófobos, segundo relatório da ONG Southern Poverty Law Center, dedicada a monitorar esse tipo de incidente.

“Torne a América branca de novo”: Suásticas e referências ao nazismo proliferaram após eleição de Trump

Segundo o psicanalista Contardo Calligaris em entrevista à BBC Brasil: “Nas redes sociais, é possível expressar o seu ódio, dar a ele uma dimensão pública, receber aplausos pelos seus amigos e seguidores, e se sentir de alguma forma validado. Ou seja, as redes sociais produzem uma espécie de validação do seu ódio que era muito mais difícil antes de elas existirem e se tornarem tão importantes na vida das pessoas.”

Amigos, não é preciso ser gênio para saber que discursos de ódio contra minorias ganham mais força quando defendidos por autoridades, figuras importantes e em uma perspectiva mais atual, por “influenciadores”, sejam estes políticos, artistas ou pseudo celebridades. Jair Bolsonaro, presidente eleito do Brasil, que tomará posse em 1º de janeiro de 2019, fez carreira em cima de discursos de ódio contra negros, mulheres, homossexuais e indígenas.

Assim como no caso de Trump, era a chance que muita gente misógina, racista e homofóbica esperava para sair do armário e destilar seu veneno offline e, principalmente, online, onde a sensação de anonimato é um fator motivador. Do mesmo modo em que vimos no caso americano, diversos crimes com motivação discriminatória foram registrados em todo o Brasil ainda durante as eleições. E onde isso vai parar?

Romualdo Rosário da Costa, conhecido como Moa do Katendê
Moa do Catendê foi morto a facadas após discussão política em Salvador. Reprodução Facebook

A mídia internacional não consegue entender como o povo brasileiro, tradicionalmente uma população de centro-esquerda, motivado por uma campanha agressiva nas redes sociais (olha o plágio americano aí de novo) se deixou seduzir por um populista de extrema-direita, que flerta com o autoritarismo e endeusa torturadores. Justo o brasileiro, um povo tão pacífico…

É, pessoal, nosso buraco é tão mais embaixo que já vislumbro o fim do poço. O brasileiro não é pacífico, isso é uma ilusão. Nós somos um dos poucos países que nunca tiveram uma “guerra civil”, mas optamos por outros nomes em detrimento deste termo: cabinagem, balaiada, sabinada e tantos outros. Na verdade, assim como outros países da América Latina, vivemos uma guerra civil não declarada há décadas, tendo como pilares a corrupção, a desigualdade social e uma tal de “guerra às drogas” que, se não fazia sentido nos anos 70 de Richard Nixon, hoje faz menos ainda.

O Brasil é líder mundial em homicídios, tendo atingido a taxa de 30 assassinatos para cada 100 mil habitantes (cerca de 30 vezes maior do que na Europa) em 2016, segundo o Atlas da Violência 2018, com base em dados do Ministério da Saúde, além de figurar entre os quatro líderes globais em assassinato de ativistas.

Mas voltemos ao brasileiro “cordial”, não necessariamente pacífico e receptivo a estrangeiros, como sugeriu Sérgio Buarque de Holanda na década de 30, e que o professor Leandro Karnal definiu como “incapaz de objetividade” e movido por paixões extremas, seja por um time de futebol, uma escola de samba do coração ou, mais recentemente, por políticos (essa de longe, ao meu ver, a pior de todas as paixões).

O brasileiro médio está vivendo a sombra e os dilemas do arquétipo do Órfão, do Cara Comum, do Zé Povinho, do “Bom Cidadão”. Ao mesmo tempo em que tem necessidades individuais específicas, desde as mais básicas (sobreviver em um estado de extrema violência e desigualdade) às superiores (formação intelectual e – quem sabe – elevação espiritual), também tem a necessidade de se sentir parte de um todo, de uma coletividade, de se perderem na multidão.

 

“É uma coisa um pouco ridícula ouvir isso de um psicanalista, mas eu acho que o discurso de ódio nas redes sociais é algo que deveria ser perseguido, deveríamos ter limites claros ao que é o campo da liberdade de expressão, que é intocável, e o momento em que aquilo se torna uma ameaça e deveria receber imediatamente a atenção da polícia e do Judiciário.”

—  Contardo Calligaris, psicanalista.

 


O BRASIL É O PAÍS DO FUTURO DAS “FAKE NEWS”?


Media Politics Fake News Press Disinformation
Imagem: Max Pixel

 

O problema atual é que os clubes de futebol, as escolas de samba, os sindicatos, as agremiações e associações de todas as espécies estão sendo rápida e violentamente substituídos por essa “novidade” chamada “visão política”, talvisão se resume em separar a população em dois grandes grupos: os que apoiam o meu candidato dos que não apoiam, estes, certamente, do lado extremo oposto. E quando os dois lados têm visões extremistas, a tendência é que o embate seja ainda mais violento.

O que nos leva aos seguintes questionamentos: Até onde estamos dispostos a ir em nome da “coletividade”, da “anticorrupção”, da “moral e dos bons costumes”. E ainda outra: O quanto estamos dispostos a abrir mão de conquistas históricas extremamente relevantes no âmbito social para salvar o país do “comunismo”, da “ideologia de gênero”, do “marxismo cultural” e mais um monte de outras baboseiras propagadas por boçais como Olavo de Carvalho e seus seguidores, adeptos de teorias esdrúxulas como a do geocentrismo e da Terra plana?

Oi!?

Será que não ficou claro o quanto a baixa escolaridade do brasileiro médio e a falta de conhecimento da própria realidade influenciaram na propagação de notícias falsas estapafúrdias nas semanas que antecederam o primeiro turno das eleições? Que entramos para o grupo de influência de raposas internacionais como Steve Bannon (ex-estrategista de campanha de Donald Trump)?

Se até macacos velhos da internet, como eu, podem eventualmente serem ludibriados por “fake news” (anos atrás eu caí na história da vacina, assumo!), imagina o que pode acontecer com as pessoas com conhecimentos mais limitados com relação à tecnologia e à manipulação de massa que aprendem a usar em algumas horas essa querida e popular Deep Web de bolso conhecida como WhatsApp!

Mas, 1964 já… Ops! …2019 já aponta no horizonte e “novas” emoções nos aguardam. Ao povo brasileiro eu desejo além de todas aquelas coisas de praxe de fim de ano (saúde, prosperidade, paz, amor), muita EDUCAÇÃO, muita TOLERÂNCIA e, principalmente, doses cavalares de BOM SENSO!

Me despeço deixando uma reflexão do criador de uma das redes sociais mais utilizadas pelos nossos “Caras Comuns”, em meados dos anos 2000, quando tudo ainda era mais leve e descompromissado. Bons tempos esses!

 

“A internet transformou a humanidade de muitas maneiras, deixou muitas coisas mais fáceis e eficientes, mas estamos mais sozinhos e desconectados do que nunca”.

— Orkut Büyükkökten, engenheiro de software, desenvolvedor do Orkut.

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