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‘O Hobbit’ completa 80 anos

Leia crítica escrita por C.S. Lewis em 1937. Autor de ‘Crônicas de Nárnia’ era amigo pessoal de J.R.R. Tolkien

Capa do livro ‘O Hobbit’ – Divulgação

RIO — Há exatos 80 anos, o escritor britânico J.R.R. Tolkien, autor da série de livros “O Senhor dos Anéis”, publicava “O Hobbit”, embrião da famosa saga de Frodo, que se tornaria um dos trabalhos mais populares da literatura do século XX. O livro de 1937 tem como personagem principal o hobbit Bilbo Bolseiro, tio de Frodo responsável por entregar ao sobrinho o Anel de Sauron — gesto que dá início à jornada contada pela trilogia. A publicação de “O Hobbit” é permeada de curiosidades, que vão desde as mudanças que “O Senhor dos Anéis” provocou em sua história original até as críticas que recebeu após ser publicado.

A primeira crítica feita para a história de Bilbo veio antes mesmo de sua publicação, em 21 de setembro de 1937. O autor: um menino de dez anos de idade chamado Rayner Unwin. Filho do fundador da editora responsável pelo livro, Stanley Unwin, Rayner recebeu a divertida tarefa de avaliar qualquer ficção infantil que a George Allen & Unwin fosse lançar. O motivo fazia sentido: seu pai acreditava que crianças eram as pessoas mais capazes de avaliar o que faz um livro infantil ser bom.

“Este livro, com a ajuda de mapas, não precisa de nenhuma ilustração. Ele é bom e deveria chamar a atenção de todas as crianças com idade entre 5 e 9 anos”, avaliou o menino.

A primeira crítica de “O Hobbit”, feita por um menino de 10 anos – Divulgação

Após seu lançamento, o livro, que conta a saga de Bilbo para conquistar parte de um tesouro guardado pelo dragão Smaug, recebeu avaliações muito positivas, como foi o caso da crítica do “New York Times”, que o classificou como “um dos livros infantis mais originais e deliciosamente imaginativos que já apareceram em muito tempo”. Segundo o jornal, apesar de muitos “monstros escamosos” já terem sido mortos em outras lendas e contos folclóricos, “nunca houve, para leitores modernos, um guia tão completo sobre as maneiras de um dragão”. A crítica enaltecia também as definições minunciosas que o livro fazia das características distintivas de anões, duendes, trolls e elfos.

Outra curiosidade sobre as avaliações que “O Hobbit” recebeu está na crítica extremamente positiva que saiu dias após o lançamento do livro no suplemento literário da “Times”. Publicado sob autoria anônima, o texto, que classificava o livro como um “clássico”, na verdade foi escrito por seu grande amigo C. S. Lewis, escritor que publicaria, anos depois, a famosa série de livros de fantasia “As Crônicas de Nárnia”.

Leia a crítica de “O Hobbit” por C.S. Lewis na íntegra:

Um mundo para crianças: J. R. R. Tolkien, O Hobbit: ou Lá e de Volta (Londres: Allen & Unwin, 1937)

As editoras afirmam que O Hobbit, embora muito diferente de Alice, se assemelha com o conto por ser tratar do trabalho de um professor. Uma verdade mais importante é que ambos pertencem a uma classe muito pequena de livros que não têm nada em comum, exceto o fato de nos admitirem em um mundo próprio deles – um mundo que parece ter acontecido muito antes de nós tropeçarmos em direção a eles, mas que, uma vez encontrado pelo leitor certo, torna-se indispensável para ele. Seu lugar é com Alice, Flatland, Phantastes, The Wind in the Willows. [1]

Definir o mundo do Hobbit é, obviamente, impossível, porque ele é novo. Você não pode antecipar isso antes de ir lá, assim como não pode esquecer depois de ter lá ido. As admiráveis ilustrações e mapas de Mirkwood e Goblingate e Esgaroth, feitas pelo autor, dão um leve indício – assim como os nomes do anão e do dragão que prendem nossos olhos quando folheamos pela primeira vez as páginas. Mas há anões e anões, e nenhuma receita comum para histórias de crianças lhe dará criaturas tão enraizadas em seu próprio solo e história como as do professor Tolkien – que, obviamente, sabe muito mais sobre elas do que ele precisa para esse conto. Menos ainda, a receita comum nos preparará para a mudança curiosa dos começos de sua história (“hobbits são pessoas pequenas, menores do que anões – e não têm barbas -, mas muito maiores do que Lilliputians”) [2 ] ao tom de saga dos capítulos posteriores (“Está na minha cabeça perguntar que parcela de sua herança que você teria pago a nossa família se tivesse encontrado o tesouro desprotegido e nós mortos”). [3] Você deve ler para si mesmo para descobrir quão inevitável é a mudança e como ela acompanha a jornada do herói. Embora tudo seja maravilhoso, nada é arbitrário: todos os habitantes de Wilderland parecem ter o mesmo direito inquestionável de sua existência como os de nosso próprio mundo, embora a criança afortunada que os encontre não terá idéia – e seus não-iniciados familiares mais velhos muito menos – das fontes profundas em nosso sangue e em nossa tradição a partir das quais eles brotam.

Assim, deve ser entendido que este é um livro para crianças apenas no sentido de que a primeira de muitas leituras pode ser realizada no berçário. Alice é lida seriamente por crianças e com riso por adultos; O Hobbit, por outro lado, será mais divertido para seus leitores mais jovens, e apenas anos depois, em uma décima ou uma vigésima leitura, eles começarão a perceber o que a erudição hábil e a profunda reflexão fizeram para que tudo nele seja tão maduro, tão amigável e, a seu modo, tão verdadeiro. A previsão é perigosa: mas o Hobbit pode muito bem ser um clássico.

Revisão publicada no Times Literary Supplement (2 de outubro de 1937), 714.

Com informações de O Globo | ‘O Hobbit’ completa 80 anos; leia crítica escrita por C.S. Lewis em 1937

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